Franz Kafka

"e ao que parece apenas nos resta em comum o intenso desejo de que estejas aqui e que teu rosto se aproxime em qualquer parte o mais possível do meu. E, naturalmente, também o desejo de morrer, esse desejo de uma morte 'cômoda' que ambos temos, mas na realidade é um desejo de criança, assim como quando eu, por exemplo, na hora de matemática, ao ver que o professor sobre o estrado folheava o livro de classificações e provavelmente procurava o meu nome, comparando a imensidade de minha ignorância com esse espetáculo de poder, terror e realidade, e quase sonhando de angústia, desejava erguer-me como um espírito e como um espírito atirar-me entre os bancos e com a mesma ligeireza de meus conhecimentos matemáticos desaparecer voando da vista do professor, atravessar de algum modo a porta, materializar-me do lado de fora e sentir-me novamente livre nesse ar formoso, que em toda a extensão do mundo que eu conhecia não possuía tensões comparáveis às dessa aula."

 * extraído de Cartas a Milena