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Carlos Drummond de Andrade

" Já não via ninguém, todos se haviam mudado para as cidades em frente, ao norte, ao sul, e eu passeava lugubremente minha solidão nas ruas que ressoavam a meu passo, ruas que outrora me eram familiares, e agora pareciam escurecer, mudar de forma, de cheiro: de tal modo estavam ligadas a uma época, uma geração, um estado de espírito que se descompunham... Tudo ia escurecendo... escurecendo... Mas eu andava, eu continuava, eu não queria acreditar... "

* extraído de Contos de aprendiz

Carlos Drummond de Andrade

" Escrevia realmente para quê, escrevia por quê? Autor, tipógrafo e público não saberiam responder. Eu não tinha projetos. Não tinha esperanças. A forma redonda ou quadrada do mundo me era indiferente. A maior ou menor gordura dos homens, sua maior ou menor fome não me preocupavam. Sabia que os homens existem, que viver não é fácil, que para mim próprio viver não era fácil, e nada disso contaminava meus escritos. "

* extraído de Contos de aprendiz

Carlos Drummond de Andrade

"Eu escondia meu crime, orgulhoso de tê-lo cometido, fazendo da literatura um segredo de masturbação. "

* extraído de Contos de aprendiz

Carlos Drummond de Andrade

" Não sou bastante forte para me libertar, nem suficientemente dócil para me submeter "

* extraído de Contos de aprendiz

Carlos Drummond de Andrade

" Também gosto mais de descobrir do que de aprender "

* extraído de Contos de aprendiz

Carlos Drummond de Andrade

" Diria apenas que os romances, os poemas, os quadros, as esculturas, os nobres edifícios não evitaram nem atenuaram a barbárie extrema de certas épocas, e a brutalidade habitual nos choques de interesses em qualquer época, e até às vezes extraíram sua seiva de crueldade desses fenômenos. E isso me dá a sensação inconfortável da inutilidade vaidosa do ato de escrever. "

* extraído de Tempo vida poesia

Carlos Drummond de Andrade

" Eu me pergunto se não há um egoísmo fundamental no criador literário, no artista, que se distrai com as formas da beleza, com o jogo sutil do espírito, enquanto a realidade em volta é apenas o esforço pela sobrevivência, sem qualquer horizonte, qualquer Gioconda de museu. "

* extraído de Tempo vida poesia

Carlos Drummond de Andrade

" Às vezes dá vontade soltar o que está bem no fundo da consciência, envelopado em cautelas e conveniências de algodão. "

* extraído de Tempo vida poesia

Carlos Drummond de Andrade

" Experiência individual é sempre traço componente de um desenho coletivo, que se vai tecendo pela reunião de testemunhos. Desenho contraditório, como a vida. "

* extraído de Tempo vida poesia

Carlos Drummond de Andrade

"Prefiro ir falando como as coisas em geral acontecem: sem método"

* extraído de Tempo vida poesia

Carlos Drummond de Andrade

" Chegando-se a certa idade, se não aumenta a capacidade de amar, ou simplesmente de simpatizar, diminui a de ter raiva ou guardar ressentimento. Tudo perde muito de valor, só restam as coisas essenciais. Então um dia a gente se surpreende gostando de seus inimigos. Afinal, tudo são relações humanas, que compreendem encontro, desencontro, distanciamento, reaproximação, gostar de quem não gosta da gente, e, é natural, de quem gosta ou já gostou. Hoje eu também zurraria pelas campinas, ao lado do meu ex-desafeto. Vida."

* extraído de Tempo vida poesia

Carlos Drummond de Andrade

" Quem não provou o gosto de andar alta noite em conversa com amigos na cidade deserta não sabe o que a noite tem de bom, e que não é boate nem inferninho. Andar sem roteiro, como fazíamos. Para não chegar a parte alguma. Refazer o itinerário, uma, duas, mais vezes. Sono? Aula amanhã cedo? Quem disse que é motivo para encurtar a prosa, tomar rumo da casa? Ainda não passou, varando o silêncio, o último bonde. Pode passar, a gente não pega. Voltaremos a pé, no entressono, sem arrependimento. Noite perdida, noite ganha. Era assim a turma."

* Extraído de Tempo vida poesia

Carlos Drummond de Andrade

"O exercício da saudade deve excluir o masoquismo"

* extraído de Tempo vida poesia