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José Saramago


“Mas escrever (aí está o que eu já aprendi) é uma escolha, tal como pintar. Escolhem-se palavras, frases, partes de diálogos, como se escolhem cores ou se determina a extensão e direção das linhas. O contorno desenhado de um rosto pode ser interrompido sem que o rosto deixe de o ser: não há perigo de que a matéria contida nesse limite arbitrário se esvaia pela abertura. Pela mesma razão, ao escrever, se abandona o que à escrita não serve, ainda que as palavras tenham cumprido, na ocasião de serem ditas, o seu primeiro dever de utilidade: o essencial fica preservado nessa outra linha interrompida que é escrever.”
* extraído de Manual de pintura e caligrafia


José Saramago

“Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes. A mim me parecia, no entanto, que esta esfera se não desprendera e que eu viajava dentro dela. É chegada a altura de ter medo: murmurei estas palavras. Pelo horizonte do meu deserto está a entrar novas pessoas. Estes dois velhos, quem são, que serenidade é que a têm? E o Antonio, preso, que liberdade transportou consigo para a cadeia? E M., que me sorri de longe, pisando a areia com pés de vento, que usa as palavras como se elas fossem lâminas de cristal e que de repente se aproxima e me dá um beijo? É a altura de ter medo, repito. A perfeição existe de passagem. Não para se demorar. ‘Gostei de estar contigo’, disse ela. Aplicadamente, cuidando do desenho da letra, escrevo e torno a escrever estas palavras. Viajo devagar. O tempo é este papel em que escrevo.”

* extraído de Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“Atingiu aquela plenitude que é a fraqueza humana de imaginar que de repente sabemos tudo e não precisamos de explicação.”

* Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“Parte de mim dorme, a outra escreve, mas só a que dorme poderia ler o que está escrito nas folhas de papel, é só no sonho que existe este vento levíssimo que as faz passar, uma a uma, à medida do tempo que a leitura demora. Não tarda que chegue a manhã.”

* extraído de Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“Sinto-me, eu, numa espécie de noite, sem ter verdadeiramente conhecido o dia, apenas agarrado à simplicidade de afirmar que a vida é simples.”

* extraído de Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“Por isso eu estou tão seguro desta minha simples verdade: o eu deste instante preciso é fundamentalmente diferente do que era um segundo antes, algumas vezes o contrário, mas sem dúvida, sempre, outro. Por isso é tão verdade para mim ser o passado morto (seria insuficiente dizer apenas: está morto).”
* extraído de Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“A minha vida é uma impostura organizada discretamente: como não me deixo tentar por exagerações, fica-me sempre uma segura margem de recuo, uma zona de indeterminação onde facilmente posso parecer distraído, desatento e, sobretudo, nada calculista. Todas as cartas do jogo estão na minha mão, mesmo quando não conheço o trunfo: é certo que pouco ganho quando ganho, mas as perdas também são mínimas. Não há grandes e dramáticos lances na minha vida.”

* extraído de Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“Escrever não é outra tentativa de destruição mas antes a tentativa de reconstruir tudo pelo lado de dentro, medindo e pesando todas as engrenagens, as rodas dentadas, aferindo os eixos milimetricamente, examinando o oscilar silencioso das molas e a vibração rítmica das moléculas no interior dos aços.”

* extraído de Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“porque a vida é muito mais feita de banalidade, de palidez, de barba mal rapada ou mal crescida, de hálito sem frescura, de cheiro de corpo que nem levado.”

* extraído de Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“Que quero eu? Primeiramente não ser derrotado. Depois, se possível, vencer.”
* extraído de Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu.”
* extraído de As intermitências da morte

José Saramago

“Enfim, de deus e da morte não se têm contado senão histórias, e esta não é mais que uma delas.”
* extraído de As intermitências da morte

José Saramago

“Porque as palavras, se o não sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixaram de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados.”
* extraído de As intermitências da morte
“Parece boa ideia, Sim, mas só porque não temos outra melhor.”

* extraído de As intermitências da morte
“Aí está uma palavra que soa bem, cheia de promessas e certezas, dizes metamorfose e segues adiante, parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque os nomes que lhes deste não são mais do que isso, os nomes que lhes deste.”

* extraído de As intermitências da morte
“Com as palavras todo cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas.”
* extraído de As intermitências da morte
“Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O paraíso, Paraíso ou inferno, ou cousa nenhuma, o que se passe depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu.”
* extraído de As intermitências da morte
“Ficou ali como suspensa, baloiçando o frágil corpo à borda da vida, ameaçando a cada instante cair para o outro lado, mas atada a este por um tênue fio que a morte, só podia ser ela, não se sabe por que estranho capricho, continuava a segurar.”
* extraído de As intermitências da morte

José Saramago

“É o que tem o tempo, corre e não damos por ele, está uma pessoa por aí ocupada nos seus quotidianos, subitamente cai em si e exclama, meu Deus como o tempo passa, ainda agora estava o rei Salomão vivo e já lá vão três mil anos.”
* extraído de História do cerco de Lisboa

José Saramago

“Enfim, viver não é apenas difícil, é quase impossível.”
* extraído de História do cerco de Lisboa